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Campanha pela volta do ladrão de galinha

Columna- Xico Sá 01/07/2016
Chega de larápios graduados e capazes de grandes golpes políticos e empresariais
 

A cada viagem do camburão Vip da PF, que nos brindou esta semana com mais figurões da turma do Eduardo Cunha, volto às ruas com a minha campanha pela reabilitação daquela humilde e despretensiosa criatura da rapinagem de bagatelas: o ladrão de galinha.

Popular e ao mesmo tempo celebrizado por grandes escritores como Balzac e o nosso cronista-mor Luis Fernando Verissimo, precisamos reabilitar, urgentemente, como símbolo da Pátria, o ladrão de galinhas. Só o ladrão de galinha nos faz retomar a esperança. Chega de tenebrosas transações.

Em vez dos grandes esquemas suprapartidários, a volta do roubo nos poleiros e quintais. O ladrão de galinha, praticamente em extinção no Brasil, é o avesso dos Cunhas e demais temeridades.

Na definição balzaquiana, trata-se do pobre homem consagrado por um hábito imemorial, um infeliz prestidigitado que só exerce sua habilidade sobre objetos desvalorizados na praça. O ladrão de galinha, segundo o escritor francês no seu livro Código dos homens honestos (editora Nova Fronteira), é uma inteligência inferior e nunca irá além de relógios, sinetes, lenços, bolsas, xales etc.

Repito, nesta coluna panfletária e sem o lirismo habitual deste cronista: pela volta imediata das reinações dos ladrões de galinha. Chega de larápios graduados e capazes de grandes golpes políticos e empresariais.

Pedras que bebem

Tentando me equilibrar sobre as pedras bêbadas e imperiais de Paraty -o que faz da embriaguez da plebe rude mais humilhante-, reflitia com os amigos Gregório Duvivier e Maria Ribeiro sobre literatura e seriedade -realizei com a dupla uma apresentação do projeto Você é o que lê na Flip. A solene reflexão me leva a resgatar agora para vocês uma velha e sempre reciclada lista de livros -supostamente de literatura séria- que me fizeram cócegas até na alma.

A propósito, na mesma festa literária, o cronista português Ricardo Araújo Pereira, disse que toda literatura é, de certa forma, cômica. De Dom Quixote ao mais jovem romancista borracho da Flip, a tese faz sentido. Tente não morrer de rir com os livros abaixo. E olhe que deixei de fora, apenas para cometer a clássica injustiça desse tipo de serviço sujo do jornalismo, O Guia dos Mochileiros das Galáxias, todo Nelson Rodrigues, Veríssimo e Gogol, meu xodó no pagode russo.

1) Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis (editoras variadas). Fica a frase do livro que mais gosto: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos".

2) De Moscovo a Petuchki – a lucidez de um alcoólico genial, de Venedikt Erofeev (Cotovia, Lisboa). Saiba como se aproximar civilizadamente de uma mulher bêbada e aprenda fazer o drinque mais barra pesada do planeta: o tripa de cadela.

3) Poemas de Ascenso Ferreira (Nordestal Editora). Nenhum poeta brasileiro conseguiu ser tão lindamente cabra-safado. Oswald de Andrade é café pequeno diante desse monstro de Palmares, Pernambuco.

4) Macho não ganha flor. Dalton Trevisan (Record) e o fornicário de um eterno tragicômico.

5) 90 livros clássicos para apressadinhos, de Henrik Lange (Record). Repare como ele resume Cervantes: "Dom Quixote, na época em que ainda não tinha TV, lia pra cacete e ficou com umas ideias malucas…"

6) A assombrosa viagem de Pompônio Flato – Eduardo Mendoza (Planeta)- O picaresco espanhol mandando ver. Coitado de Pompônio. Foi em busca de águas místicas e encontrou um mar de águas gaseficantes.

7) O Fantasma de Canterville – Oscar Wilde. Tem edições variadas no Brasil. Recomendo a mais recente da Casa da Palavra, com tradução de Bráulio Tavares.

8) Uma confraria de tolos – John Kennedy Toole (BestBolso).

9) Pornopopéia – Reinaldo Moraes (Objetiva). Do mesmo autor de Tanto Faz. E isso faz toda a diferença.

10) Fup – Jim Dodge (Ed. Nova Fronteira) – Um velho sábio e beberrão, 99 anos, um neto cuja mamadeira era sempre batizada e uma pata gorda na lama. É proibido morrer sem ler essa maravilha hippie californiana.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Os machões dançaram -crônicas de amor & sexo em tempo de homens vacilões (Ed. Record), entre outros livros.