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Homem que é homem chora em público

Columna- Xico Sá 08/07/2016
Até o mais frio dos canalhas, chora sim. Até mesmo o choro sem lágrimas, caso de Eduardo Cunha. Mas vale, nesta crônica, o choro do homem comum e sem mandato
 

Homem que é homem, até o mais frio dos canalhas, chora sim. Com lágrimas de esguicho, como no drama de Nelson Rodrigues, e até mesmo o choro sem lágrimas, caso da renúncia do político Eduardo Cunha, apenas mais um episódio do longo seriado golpista —em nome de Deus, da família e dos sinais exteriores de riqueza. Um choro para se levar tão a sério quanto o festival de memes e gifs que despertou nas redes sociais.

Esquece. Vale, nesta crônica, o choro do homem comum e sem mandato. "Aquela gente honesta, boa e comovida, que caminha para a morte pensando em vencer na vida", sopra o artista Belchior a sua letra. "Era feito aquela gente honesta, boa e comovida, que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida".

Como o homem decente que saiu aos prantos agora do cine Roxy, em Copacabana, depois de testemunhar o drama de Julieta, o novo filme de Pedro Almodóvar. Tudo bem, meu amigo Antônio Maria, sei que ninguém tem mais pena de um cara que chora no cinema. O importante, porém, é que esta criatura ainda exista. Tenho provas.

Importantíssimo, até para o equilíbrio do planeta, que cresça a cada dia o número de homens que choram em público. Que derretam as pedras de gelo do machismo em lágrimas on the rocks ou coloridos coquetéis tropicais.

Só as lágrimas curam a hidrofobia, a raiva coletiva dos marmanjos nas grandes cidades. Só o choro humaniza, seja por um desprezo amoroso ou um desgosto de varejo, esses machos em dias de ira. Só as lágrimas melhoram, inclusive, o trânsito.

Não vale apenas o choro por uma tragédia futebolística, como vimos nesta última quarta-feira no estádio do Morumbi, na derrota do São Paulo diante do Atlético Nacional (Colômbia), em jogo da Libertadores da América. Mesmo sabendo o quanto são reais as lágrimas futebolísticas, este se trata de um drama licenciado pela macheza. É pouco. Podemos ir mais adiante.

Ombro amigo

Vale o choro no ombro do garçom depois de um revés amoroso, com direito a um Bartô Galeno na vitrola –"Essa cidade é uma selva sem você"-, um Chico, uma Bethânia, Amy Winehouse –"Back to black"?-, Nina Simone...

O choro de saudade é mais que legítimo. Aquele(a) desalmado(a) que sumiu no lusco-fusco dos encontros e desencontros. Aquele romance impossível em uma determinada hora, como se houvesse um período de defeso na pesca amorosa. O que nos escapa e nos deixa a tragar apenas o king-size da impossibilidade.

Precioso também é o choro diante de uma palavra enviesada. Aquela que dói como um chute nos países baixos. Sem essa de engolir a seco, amigo. Sem essa de conter as lágrimas. Despeje onde você estiver. Mire-se no exemplo de um gringo viejo que encontrei outro dia aos prantos em um quiosque da Pedra do Leme. Até a estátua de Clarice se apiedava do sujeito. Não era choro pelo banzo do exílio. Havia uma elegante dama ao seu lado. As lágrimas estrangeiras pingavam como goteiras no copázio de caipirinha.

Sempre invejei bastante as mulheres nesse sentido: as amigas que choravam sobre os teclados da firma, no metrô lotado rumo a Itaquera, no último ônibus da linha Penha/Lapa, no caos da Praça da República. Não importa o motivo do choro. Com ou sem óculos escuros na fila do self-service na hora do almoço.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Um cão vadio aos pés de uma mulher-abismo(editora do Bispo), entre outros livros para rir ou chorar.