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Rio de Pokémon, MacGyver e Macunaíma

Columna- Xico Sá 05/08/2016
Bem-vindos, bravos estrangeiros, à terra da gambiarã — ­­palavra em tupi­-guarani que significa acampamento improvisado e teria dado origem à nossa familiaríssima gambiarra
 

Ao procurar os personagens do Pokémon Go, jogo que virou febre tropical no lugar da zika, o caçador pode flagrar, em vez dos bichinhos japoneses, uma cena extraordinária: o Macunaíma, auxiliado por MacGyver, ainda tentando dar um jeito no caos olímpico do Rio 2016. O MacGyver, capaz de milagres nas suas gambiarras no seriado americano, obedece a ordens, pasme!, do Macunaíma, nosso herói malandro e preguiçoso criado pelo escritor Mário de Andrade ainda em 1928.

O que trato como uma ficção carnavalizada é reconhecido, na realidade, pelos próprios organizadores da festa, como lemos nesta reportagem de María Martin. Bem-vindos, bravos estrangeiros, à terra da gambiarã — ­­palavra em tupi­-guarani que significa acampamento improvisado e teria dado origem à nossa familiaríssima gambiarra. Até o presidente Michel Temer é provisório. Um nó de fios desencapados, um curto-­circuito promovido por um golpe do Parlamento que vai incinerar os 54 milhões de votos da eleita Dilma Rousseff.

Não encontraram crime de responsabilidade, como prevê a Constituição, contra a petista? Não tem problemas. Os senadores que cuidam do processo de impeachment montaram uma usina de gambiarras politiqueiras para sustentar a cassação do mandato. Por este motivo, estão marcados para hoje, dia da abertura da Rio 2016, uma série de protestos na terra da garota de Ipanema e outras bossas.

Pokémons em segurança

Pelo menos durante os jogos olímpicos, o Rio pode ser um lugar tranquilo nessa temporada de caça aos pokémons. Flagrei uma turma de jovens vizinhos aqui em Copacabana comemorando a possibilidade de se aventurar, distraidamente, com seus caros aparelhos celulares na zona sul carioca. A praia mais famosa do mundo nunca esteve policiada como agora. Os pokémons e seus caçadores estão salvos. Por enquanto.

Há quem prefira aproveitar o bairro, nesse momento de festa mitológica, para as atividades mais dionísicas. Os boêmios de Copacabana conseguimos uma proeza: escalar um garçom, o popularíssimo Aguinaldo do bar Galeto Sat's, na lista de celebridades que conduziram a tocha olímpica na reta final do giro pelo Brasil. Um épico carnavalesco ao som do coro dos descontentes que grita, sem cessar, "Fora Temer".

Entre uma gambiarra, um ato anarcopolítico e tantas outras manifestações, a gente vai levando, como recomenda o hino informal popular de Chico Buarque e Caetano Veloso. Mesmo com todo golpe, todo galope, todo escroque... A gente vai levando essa lida.

Mesmo com a "Pátria em chuteiras" calçando hoje apenas as sandálias da humildade, como diria o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, o nosso Shakespeare dos trópicos. Até parece que nunca mais vamos nos curar daquele tragicômico 7x1 para a Alemanha, na Copa de 2014. Os meninos da seleção de futebol entraram em campo na estreia com a arrogância de Neymar & cia. Deixaram o estádio Mané Garrincha, depois de um decepcionante 0x0 com a África do Sul, cabisbaixos, sob alguns surtos de vaias. Nem Gabriel Jesus, badalado jovem que caiu nas graças do técnico Pepe Guardiola (Manchester City), salvou os canarinhos.

Quem sabe o grande triunfo da outrora terra do futebol não seja no badminton. O Brasilzão de tantos paradoxos e contradições agora joga badminton na favela, onde a gambiarra da sobrevivência é uma prática rotineira, não apenas nos grandes eventos. A arte picaresca de tirar leite de pedra e dar nó em pingo d'àgua.

A gente vai levando... Evoé, Baco!

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor da novela Big Jato (editora Companhia das Letras) e de Os machões dançavam ­crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões (ed. Record), entre outros livros. Comentarista de televisão programa Papo de Segunda (canal GNT).