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Rocco Siffredi: "Dependia do sexo. Conduzia minha vida"

Diario- Tommaso Koch 06/09/2016
O astro do pornô fala abertamente em um controvertido documentário apresentado em Veneza e nesta entrevista
 

Sua mãe queria que fosse padre. No entanto, ele fez "um pacto com o demônio". Assim se refere Rocco Siffredi (Ortona, 1964) à parte mais célebre de seu corpo. A que o levou a ser o astro do pornô mais conhecido do mundo. Aquele acordo lhe presenteou com felicidade, fama, dinheiro e a possibilidade de dormir com "muitíssimas mulheres lindas" –1.700 filmes, com quatro ou cinco parceiras em cada um, calculem vocês. Em troca, o diabo entre suas pernas o privou da intimidade e do controle sobre sua vida. Chegou a dominá-lo, sustenta Siffredi. Não parece haver nada que o ator não esteja disposto a contar. Fez isso no documentário Rocco, apresentado ontem no Festival de Veneza. E continua nesta entrevista.

"Podíamos gravar tudo. Tinha uma única obsessão: contar a verdade", defendem Thierry Demaizière e Alban Teurlai, fotógrafos documentaristas que já tinham filmado Vincent Lindon e Karl Lagerfeld e agora se depararam com seu desafio "mais difícil". De modo que Rocco é real, para o bem e para o mal. Porque sua metragem mergulha como nunca em quem é o chamado Míster 23 centímetros, mas provocará dúvidas e indignação pelo narcisismo do personagem e, sobretudo, em relação ao machismo e o conceito da mulher como objeto que parecem reinar em algumas ações de Siffredi e na indústria na qual trabalha.

A sinceridade do ator obriga a outro esclarecimento. O intérprete explica cada detalhe sexual com termos explícitos. Por isso suas declarações aparecem aqui traduzidas para uma linguagem mais publicável. "Dependia do sexo. Conduzia minha vida. Durante anos fazia pelo menos três vezes ao dia. E somente quando quis parar [há uma década] me dei conta de que não podia. Comecei a sair com prostitutas. E depois velhas, transexuais, qualquer coisa que se mexesse", relata Siffredi. Assim, diante de sua esposa, Rozsa Tassi, e seus dois filhos, se mostrava um pai responsável, que tinha deixado de lado sua carreira e seus fantasmas. Mas, enquanto isso, não parava de traí-los e a si mesmo. "É um homem cheio de lágrimas, herói e anti-herói, crucificado entre seus desejos e a incompatibilidade deles com a família", afirmam os cineastas. "O pênis irrompe e você acaba fazendo coisas que nem queria. Depois sai e vomita", afirma ele. Tanto que quando viu Shame, o filme sobre um viciado em sexo protagonizado por Fassbender, sentiu algo mais que identificação: "Era eu".

Pensou em ir a algum sexólogo, mas, o que lhe contaria? Chegou a ter tendências autodestrutivas. "Dirigia o carro a 200 quilômetros por hora, esperando sofrer um acidente. Subia em um avião e desejava que caísse", relata. E se sentia "nojento" cada vez que Tassi ou seus filhos lhe sorriam. Finalmente, sua participação no reality A Ilha dos Famosos foi o ponto de partida para o processo que culmina em Rocco: "Esvaziar-me". Confessou tudo a sua família e ao público. E retomou a carreira até hoje. No documentário se vê como roda sua última sequência como ator. Jura que só se dedicará a dirigir, produzir e a dar aulas na Academia do pornô que vai criar em Budapeste.

Termina assim a trajetória fílmica de um mito da indústria. Desde pequeno Rocco Tano –seu nome real– sonhou em ser um astro do pornô. Todos lhe deram as costas, os irmãos até afastavam seus filhos dele. Todos menos sua mãe, que foi a única que se manteve a seu lado. "Se é o que você quer, faça", ela lhe disse. E Siffredi mostra uma veneração absoluta pela progenitora, Carmela. Tanto que, apesar de ela ter falecido, em sua mente continua acompanhando todos os seus passos a cada noite.

Outras mulheres não recebem o mesmo tratamento. O documentário mostra Siffredi interagindo com várias atrizes antes e durante as filmagens. Há provocações sexuais. Elas mesmas o temem e idolatram. Uma sequência na qual introduz sua mão bem fundo na garganta de uma jovem alcança limites indignos. Não lhe parece machista? "Você deveria se fixar em quem pega minha mão e quer mostrar-me do que é capaz. O pornô foi 100% machista, as mulheres nem tinham orgasmos. Hoje mudou muitíssimo, agora mesmo há coisas que nem se imagina. É um ataque que ficou para trás, acho engraçado." Seja como for, era também a obsessão dos diretores durante os dois anos de filmagem: "Não mostramos o falso gozo das mulheres, mas suas feridas e dores. Não negamos que a pornografia seja sexista e não escondemos nada. Era nossa principal preocupação. No entanto, o documentário também mostra que a verdade é mais complexa e incômoda".

Os cineastas confiam em que Rocco tenha mais mercado que o atual cinema pornográfico. Siffredi acredita que a "Internet o destruiu em 100%. Agora qualquer um grava com o celular e posta grátis. Os novos ricos do setor não são os produtores, mas quem sabe usar a rede".